Um bilhetinho enfiado por debaixo da porta.
”[…] Acordar todos os dias, e observar teu sorriso esperando por um beijo, respirar o mesmo ar que você, segurar teus dedos quentes e te guiar para a chuva. Dançar com você num soneto de poesia, ir atrás de você para cantar-lhes uma música antes de dormir, afagar-lhes os cabelos enquanto está deitada no sofá. Vou caber em ti, morar em ti, amanhã se tu quiser, mas hoje vou dormir aí.
Um beijo,
Rafael. ”
O moço me arrancou um sorriso tão grande, que eu deveria fotografar e guardar só para ele. Um ‘sim’ transbordava o meu corpo por inteiro, suspirava tanto que o coração chegava a arder em felicidade. Fui indo para a cozinha, até que na geladeira tinha um outro papelzinho azul (azul como o céu) lá tinha o número de telefone dele. Eu já sabia, obviamente, mas ele resolveu anotar. Liguei.
-Alô.
-Oi, meu amor. Ele respondeu.
-Por quê tá fazendo isso?
-Cê tá sorrindo? Tá gostando?
-Sim, claro. Dei um risinho desconcertado.
-Então, tá bom pra mim.
-Mas, por quê? Suspirei do outro lado da linha.
-Me encontra na estação. E vá no teu quarto e procure por um envelope. E por favor, não abra.
-Ei… Eu sussurrei.
-Você é lindo. Ouvi a risada dele e desliguei o telefone. Estava a me desmanchar em trejeitos de cada palavrinha soprada pelo telefone. Acalmastes o pouco de mim, que estava a se enraivar. Agradeceria-lhe pelo resto da vida, só por me fazer sorrir, com tamanha besteira. Me enfiei numa roupa qualquer e fui atrás d’um ônibus que chegasse até o metrô, rápido. Estava a gostar de tudo isso, na verdade, por demasia meu coração estava a transbordar tudo que é sensação, anseio, felicidade, espera, expectativa, estava a florescer lírios e jasmins dentro de mim. Suspirava forte. Guiei meus pés para fora do ônibus agradecendo até mesmo ao cobrador, dançava quase sem querer,e e o coração pulsava ardendo em felicidade, o moço estava me segurando entre os dedos e eu, que quase sem jeito, tava virando manteiga e morrendo de amores.
-Acalma-te. Murmurei para mim, tentando cessar a respiração. Eu o avistei. Ah, não. O mundo parou, e laiá, que eu estava prestes a pular nos braços dele e lascar-lhe um beijo. Segurei entre os dedos gélidos e trêmulos o envelope que nem me ousei a abrir, nem mesmo uma olhadela fiz questão de dar. Eu o vi dando outro papelzinho pro moço que estava vendendo pipoca, o menino correu tão rápido que perdi-o de vista. Ah, que me doeu o coração.
-Cê viu pra onde é que aquele menino foi? Perguntei com a respiração acelerada.
-Ele mandou te entregar isso. O homem me entregou um papel e uma pipoca, apontou seu dedo indicador para o sul, e me mandou ir em frente.
-Agradecida. Respondi, saindo e apanhando o papel e a pipoca, que fiz questão de derrubar.
-Por nada, menina. Sorri.
O bilhete dizia. ”[…] Anda um pouquinho mais pra frente, meu amor, anda… Quem sabe você não tropeça em mim.” Estava tão distraída que nem percebi, que estava esbarrando em alguém. Não desviei o olhar.
-Desculpa. Eu disse erguendo a cabeça.
-Só se você me der um beijo. Argumentou.
-Que? Tá louco? Tô atrás de alguém… Eu estava tão presa nos meus pensamentos, que nem percebi quem estava logo à minha frente. Olhei para ele, e olhei profundamente procurando por um pouco de ar ou de qualquer coisa que pudesse me fazer transparecer, num só segundo para concertar tudo o que eu tinha dito.
-Rafael…Ah. Ele riu.
-Para de rir. Seu idiota. Abaixei o rosto.
-Só te desculpo, se me der um beijo.
-Ah, não. Corei as bochechas.
-Acho melhor, excluir essa possibilidade. Ironizava a situação, com um envelope, um papel e uma pipoca entre as mãos.
Ele riu.
-Quero meu beijo.
-Não quer me ajudar não? Derrubei a pipoca.
-Tinha que ser…
-Agora vem. Ele me puxou.
-Que foi? Como se já não bastasse você correndo de mim o dia inteiro… Emburrei a face.
-Tu ficas linda, assim.
-Assim como?
-Minha, hum, bravinha.
-Sua?
-Minha.
-Meu?
-Seu. Sorri.
-Não esqueci.
-Do que?
-Não te desculpei.
-Não ligo. Resmunguei.
-Liga sim.
-Agora vem. Ele me puxava para dentro do trem.
-Cadê o envelope? Ele perguntou.
-Tá aqui, oras.
-Me dê. Eu dei o envelope para ele, olhando dentro os olhos procurando por um reflexo meu, ou por alguma música que ele não havia cantado. Ambos suspiramos, estávamos colidindo, um jeito bonito de começar a amar, ele me batia a porta sempre ás três e meia da tarde de um dia de domingo, sempre. Vinha a colorir o que era o dia mais entendiado de uma semana melancólica. Meu coração transbordava. Num golpe de olhar, o menino tava bem na minha frente e eu nem pude desviar, me roubou um beijo. E ah… que beijo doce.
-Masss….Rafa..el. A voz fraquejou. Como cê faz uma coisa dessas? Roubando beijo? Que coisa de menino.
-Larga de graça.
-Não.
-Cê é teimosa.
-Não.
-Quer fugir comigo?
-Quero. Respondi sem nem pensar, estávamos dentro do trem, com uma pipoca pela metade, dois corações ardendo de amor, e duas passagens.
-Para onde vamos?
-Vamos para uma casinha…
-Antes de morrer, quero filhos. Disse com a voz calma.
-Quero seis.
-Quantos você quiser. Mas, foge comigo? Ele disse com o sorriso queimando em expectativas, esperanças, alegrias e felicidades, dava um jeito que flamejava até mesmo minh’alma. Dei a mão para ele, que estava tremendo de anseio.
-Não solte.
-E…acrescentei.
-E morremos de amor… Ele suspirou e me deu um beijo.
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