Der himmel ist schön, nicht wahr?
A menina ajeitava o cabelo e segurava um livro entre os dedos, o rosto encheu-se quando viu ali, em tua frente um menino de cabelos ruivos, os olhos verdes a observava, era Peter tinha um sorriso ofuscado e escondia-se por detrás do sol que cobria toda a aquela velha cidade. Frankie, deu a primeira palavra.
-Hallo, Dumm. Como está? Ela soava prepotente com as palavras em alemão. A língua a qual aprendera desde criança.
-Insiste em alemão hein, Saumensch?
-Oras, mas você também. Respondeu rápido.
-Der himmel ist schön, nicht wahr, Dumm? Não está? Concorde. A menina sorria fria, procurando alguma coisa nos lábios rachados de Peter. A dor atravessava todo aquele riso assíduo que o menino dava, só para congestionar os pensamentos da menina. Na verdade, ela estava certa, o céu estava realmente muito bonito, aliás, sempre estava. E olhe que a moça, não tinha lá um bom gosto.
-É, está mesmo. Você me parece tão ungeuldg, o que houve?
-Não estou impaciente, idiota. Só você que está vendo coisas. Seinen alten! Gritou soando toda a raiva que tinha dentro do peito.
-Não me xingue, sei que me amas desde que me viu. –Isso era verdade. Só era muito cedo para se afirmar.-
-Quem disse isso? Hein? O rosto ficou vermelho e os olhos perdiam o rumo. Was zur Hölle! A menina rugiu.
-Te controle, Saumensch. Tantas palavras feias, não te levaram a canto algum. Ele disse querendo parecer a pessoa mais calma do mundo, falhou. O coração da moça batia forte e ela dava risinhos para desviar que era verdade, deu um olhar arrogante para um homem que passava na rua, temendo que ele voltasse e lhe enfiasse os dedos no meio da cara e lhe arrancasse toda a sanidade com um só olhar. Deu mais uma olhadela para o Himmel e esperava muito contemplar alguma coisa bonita que surgisse de lá.
-Vamos me dê um lächeln. Já.
-O que tu queres com um sorriso meu? A menina perguntava com olhar ainda enraivado. E era mesmo, muitíssimo impaciente, Peter estava certo, sempre estava. E Frankie odiava o fato disso ser verdade –sempre era.
-Então me dê um Umarmung. Vai me dar? Hum? Tentou dar um riso doce, mas falhou, sempre falhava. O cabelo ruivo estava sendo levado pelo vento, a rua Blumen estava o suficientemente vazia, para que Frankie pudesse entrelaçar seus braços no de Peter sem se envergonhar, ou se irritar com qualquer Saukerl que pudesse aparecer na rua e a irritar com piadinhas bestas de criança.
-Tu vistes que abriu um café novo? Frankie mudou de assunto. Queria parecer um pouco mais sensata e mais doce, convidando-o para um café, tinham apenas treze anos de idade. Se xingavam como se tivessem dezoito, e agiam como crianças de nove. Sabe se lá, quantos anos realmente tinham.
-Um café ao lado da filha de Hitler? Eu não quero não.
-Isso foi um insulto? Was zur höllen, Saukerl! O rosto mais uma vez se enraivou.
-É tão estranha quanto ele, é sempre o contrário, Hitler penteava o cabelo para o lado contrário, e você,Saumensch, faz o mesmo. Só falta um bigode. Ele fez graça. O rosto de Frankie ficou vermelho, azul, amarelo, e depois voltou a cor normal. A menina era tão explosiva, parecia até mesmo um bomba prestes a estourar e causar um caos tão grande, que nem a própria reconhecia. Ela engoliu quieta e fez silêncio.
-O que tens? Ele tentava puxar assunto com a moça estressada. Deu um sorriso desdenhoso e desviou o olhar pra cima, enquanto observava as pernas machucadas de Frankie. Peter respirou fundo e esperou, quase vinte segundos depois a menina foi responder, os vinte segundos pareciam muito mais, pareciam infinitos vinte segundos, trezentos, talvez.
-Traurigkeit. Ela respondeu com a voz áspera. E que diabos está olhando para minhas pernas? A menina acrescentou.
-Caiu feio, hein, Saumensch? Ele dizia apontando para um machucado com um band-aid que estava caindo. Peter seguiu os dedos até o machucado e puxou o curativo.
-Saukerl! Saukerl! Vá se… Não terminou. A menina gritou alto, e a vizinha fez o favor de abrir a janela e gritar ao sete ventos:
-Cala-te, Saumensch, cala-te. Frankie olhou os mesmos olhos arrogantes e logo voltou o olhar para Peter, que soltava risadas estridentes. O machucado sangrava.
-Não acredito que fez isso… Que vontade de enfiar a mão na sua cara, menino, que raiva. O rosto ficava vermelho de novo. E então ele repetiu:
-Der himmel ist schön, nicht wahr? Frankie olhou para o céu e depois desviou o olhar para os cabelos ruivos do menino, respirou fundo e balançou a cabeça, fazendo sinal que sim. A menina olhou nos olhos de Peter e sem desviar o olhar, touco-lhe os cabelos. E logo depois deu uma olhadela para o céu. Pareciam dois garotos rabugentos e irritantes, a alma dos dois gritavam, um menino que era mais atentado que sabe se lá quem, e uma menina que tinha tampouco os modos que a mãe poderia trancafiar ela dentro de um quarto escuro e ninguém sentiria falta. Ninguém além do menino chato. Ficaram em silêncio por quase três minutos, as nuvens do céu já sorriam em uma outra rua e os pássaros já estavam dormindo. O sol ainda ardia, mas as janelas estavam todas fechadas.
-Está sangrando, viu o que você fez? Frankie dizia olhando para as pernas que escorriam sangue.
-Daqui a pouco tua mãe te puxa pra dentro de casa e joga álcool nisso aí.
-Não. Ela não faz isso, ela lavaria com sabão e depois dava alguns assopros sussurrando pra mim que passaria. Ela é doce.
-Ou ela não gosta de mim. Argumentou.
-E quem vai gostar de você, Saukerl? Ele abaixou a cabeça e enfiou os dedos no cabelo que ficava ainda mais vermelho por causa do sol, a menina seguia os dedos até o rosto de Peter e o erguia. Ele deu um sorriso fraco e logo depois abaixou. O silêncio invadia toda a rua Blumen, por mais que insistissem em gritar e xingar um ao outro, um silêncio grande prevalecia ali. Frankie ajeitou o dorso, enquanto se arrumava na calçada de concreto.
-Ninguém gosta mesmo de mim, não é? Peter perguntava com os olhos que suplicavam por sua sinceridade.
- Sua mãe, seu pai, aquele seu amigo lá da escola. Todos gostam de você. –Larga de ser idiota, menino. Acrescentou.
-E você? Eu gosto de você, e exijo que isso seja completamente recíproco. Ele balançou a cabeça pra cima, fazendo sinal engraçado. Frankie riu.
-Mas é claro que eu gosto de você, Saukerl. Sempre gostei. Ele a olhou fitando todo o seu corpo, Peter ajeitava o dorso também e se levantava, puxando os braços da menina. Ela suspirou.
-E eu acho bom gostar. Ele disse, como se estivesse debochando da cara de Frankie.
-Acho boníssimo, você gostar de mim também. A meninadizia erguendo o rosto e ajeitando a roupa. Pousou os cabelos rebeldes por detrás da orelha e desviou o olhar para o tão belo… Himmel. Deu um sorriso bonito p’ro menino, e encheu o peito com uma dose calorosa de felicidade.
-Wollen einen Kaffee? Esse pedido ainda está em cima? Ainda queres? Frankie sorriu.
-Recusar um café? Não. Eu quero, mas é você que vai pagar não é mesmo?
-Tá pensando o que, Saukerl? Tenho dinheiro não, e minha mãe não gosta de você. Não vai pagar um café para nós, agora trate de arrumar geld. Vá. Frankie deu um olhar arrogante e depois finalizou com um suspiro triunfante.
(Source: soprosdovento, via soprosdovento)
Posted 3 days ago

É um daqueles dias em que os olhos se abrem para o mundo, mas a mente continua dormindo. Um dia em que o céu chora também, que escurece todo o caminho, e os corpos celestes fazem o favor de se esconder. E o sol, se esquece de nascer. É um daqueles dias em que nos vemos distante de nós mesmos, o dia em que a alma se cansa de tanta solidão. E o peito clama por alguma palavra que possa confortar, o sonhos se perdem e também fogem dos nossos olhos. A cabeça dói e o corpo quer voltar a adormecer. E aí, você se lembra que precisa ir em frente, o quanto o mundo precisava ver um sorriso teu, mesmo estando estilhaçada dentro do teu quarto, um daqueles dias que as lágrimas descem feito ácido pelo rosto e desfaz todo o laço do seu coração.
Eu ainda estou aqui com os mesmos olhos cansados e o corpo frágil, procurando clamar por alguma coisa bonita no céu, observo cada crepúsculo e virando um fantasma da minha alma. É que ainda dói, Luís, me dói tanto ver-te em outros braços, te vejo lá e ainda ousa abrir um sorriso vago pra mim. Você sabe o quanto eu sou frágil e ainda diz que gosta de mim, não iludas meu peito, e tu sabes que meu pulmão se enche se fumaça e vira pó. Você ainda incendeia e diz que eu mudei… Eu estou queimando, e virando brasa e logo uma fotografia que pode virar poeira também. Devo lhe contar que comprei algumas rosas brancas e as pintei de preto. Devo lhe contar também, que as mesmas fizeram o favor de morrer e junto a elas, eu morri também. Hoje o sol resolveu se esconder também, e ele? Ele era minha única solução. Ofuscava todo meu brilho, me escondia bem por detrás e fingia um sorriso fraquejado para ir em frente, como se cada passo meu me levasse para trás e eu te juro… Me dói tanto. Minha memória falha procura entre seus próprios escombros alguma lembrança bonita de nós dois e querer passa-las para um papel velho.
Escrevo-te com as dores da alma e querendo procurar alguma saída para o esquecimento, tentando me enfiar ou transparecer num canto qualquer. E se isso realmente for amor, que me afogue no mar de teus braços que tanto te esperam, que tu chegues bem devagar e conquiste todo o pedaço que me arrancou, tu queres que eu me entregue ao vento sendo eu sou o meu próprio vento. Entregar-me pra qualquer um que realmente queira morar dentro de mim. Mas, tu sabes, eu não sou assim. Prefiro amanhecer em prantos e sangrar em cada noite de insônia, prefiro mergulhar numa imensidão do desconhecido e acabar presa num sussurro que esqueci de dar. É um daqueles dias em que eu abro os olhos e esqueço de acordar, devo assumir, que fiquei muito honrada por ver o céu chorando comigo também. E então, meu amor, que juntos choremos essa noite. Que nosso peito se afogue em lágrimas e possa se encontrar em algum lugar. Escrevo-te, Luís, com esperanças que algum dia esse papel velho chegue até você e saiba o quanto eu te amei. E que tu volte, num dia desses em que a alma acorda com um sorriso rasgado até a orelha, que tu volte também num dia em que o céu esteja um pouco mais preto do que branco, e que o dia chore também. Que te afundes na nossa grande tempestade, e que você cure cada ferida minha, estancando todo aquele sangue. Que um dia escorreu por você.

Anabela, tinha os olhos escuros e profundos, o rosto era fino e formoso, suas bochechas eram suculentas e vermelhas, o sorriso prevalecia no rosto. Acordava todos os dias às seis e meia da manhã, banhava-se, arrumava a cama, enchia a casa de incensos, regava as flores que vinham de sua própria floricultura e enfiava um vestido rendado no corpo e ia trabalhar. Dava sorrisos para estranhos, mesmo que o peito estivesse carregado de dor. Tinha o costume de pedir para o moço que morava na casa em frente, ajeitar as flores em seus cabelos. Ele a olhava com os olhos fundos e dava risadinhas estridentes para disfarçar o coração apaixonado. Teu nome era Gabriel, seus ombros eram largos e vivia sempre muito apressado, além de ser desastrado, seus cabelos eram claros, e seus risos sempre transbordavam alegria para o peito de Anabela. Eu os observava de longe, e hoje, conto-lhes a história, da florista e do vendedor de livros, metido à poeta. E toda vez que ele a via, o peito enchia-se de cor, e logo uma poesia. Anabela, estava lá, hoje com um vestido branco, o seu favorito. O céu chorava, e esperava ansiosamente pelo moço que ajeitaria em seus cabelos uma nova flor, jasmins, lírios, rosas, girassóis, até mesmo, aquelas flores de camomila. (A qual não me recordo o nome.) Ela deu um suspiro. Havia cores espalhadas por todos os cantos, por isso, o vestido branco, para se ofuscar, bem ali… Para que todos dessem uma atenção única as flores. Anabela, tinha uma voz doce e soava como um soneto de Vinicius de Moraes. Dava alguns beijos no vento, e sorria para luz, Anabela raiava, virava paz, dor, amor, tudo isso, num só descuido de olhar de Gabriel. Reconheço, Gabriel tinha os olhos com traços de dor, e seu perfume amadeirado enlouquecia os neurônios de Anabela. Moravam bem ali, pertinho da praia, do céu azul, das flores, e viviam numa imensidão de encontros diários que acabariam numa paixão súbita e bonita.Hoje o dia estava diferente, as nuvens choravam, e eram apenas oito da manhã, Anabela, observava um casal que passava dividindo um guarda-chuva, e esperava ansiosamente por dividir seu guarda-chuva com Gabriel também. E então, Gabriel surgiu correndo na chuva para ir recitar uma de suas novas poesias para a moça de sorriso gentil, a alma flamejou. Gabriel estava tremulo e também tinha medo, mesmo que fosse lá todos os dias, recitar suas coisas gentis para Anabela. O vestido branco sorria também. Dessa vez ela começou:
-Ei, venha, por quê veio no meio da chuva? Tu sabes que não é bom pra você, não estou nem um pouco afim de vê-lo resfriado. Anabela alertou.
-Ah, oi. Os olhos brilharam. Como é que cê ta? E não, minha bela rosa, não vou ficar doente.
-Estou bem, vamos, minha poesia para hoje é…? Anabela deu um risinho doce. Gabriel, respirou fundo, olhou dentro dos olhos de Anabela, segurou-lhe os dedos, e beijou as costas de sua mão. Anabela deu um risinho agudo. E então, soltou a respiração. O seu hálito era quente. Refletia toda aquela loja com uma cor rosa clara, era um tanto velha, mas era bonita daquele jeito, parecia até um antiquário, e Anabela tem um encanto enormes por coisas velhas. E então,Gabriel, começou:
-‘’Que vires flor dentro de mim,
Que tu vires amor,
Ou que pinte tua cor,
Que plantes,
Que tu mores,
Que tu colores.
E que tu vivas,
Vivas,
Dentro de mim.’’ Ele deu um sorriso torto, e desdenhoso. Anabela abaixou o rosto e logo o ergueu novamente. Observou os olhos de Gabriel por no máximo dez segundos e lhe deu um beijo na testa, seguiu os dedos finos até o cabelo claro e um tanto comprido de Gabriel, e lhe afagou. Ele sorriu e deu um suspiro. A flor que estava no cabelo de Anabela caía, e o moço foi logo ajeitando. Eles não trocavam muitas conversas, eram flores, afagos, beijos na testa, poesia, e um pouco mais de flores.
Anabela disse:
-Que belo, meu bem, que belo. Fechava os olhos e os segurava por alguns segundos, abria-os devagar e dava alguns suspiros leves. A brisa invadia sua floricultura.
-Fiz para você. Tudo que faça para ti, meu amor, torna-se bonito com essa tua calmaria do mar e esse teu sorriso gentil. Gabriel logo respondeu. Ele dizia devagar, mas era perceptível as batidas aceleradas do coração.
-E eu agradeço, meu bem, por seres tão compreensivo comigo, agradeço-lhe, por deixar beijar-te a testa, por deixar afagar-te os cabelos, e agradeço também por plantares flores em meu coração vazio.
-Uai. Gabriel aumentou o timbre da voz, e logo depois cessou. –Uma moça tão bela, com o coração vazio? Acrescentou. Não costumavam fazer perguntas uns ao outros.
-Uma vez, Gabriel, transbordei. Mas esqueceram-me e logo de mar, virei cachoeira, virei rio, lago, poça, e depois sequei. Mas, tu, meu moço, me fizestes transbordar mais uma vez, prefiro que isso fique guardadinho, bem aqui, só pra mim.
-Deságua em mim. Ou o que tu fores, floresça em mim. Isso, floresça.
-Eu não sei… Disse Anabela, abaixando a cabeça. Gabriel seguiu teus braços até o rosto de Anabela, erguendo-o com um dedo, bem devagar, olhou nos olhos dela e disse:
-Permita-se, meu bem, permita-se. Não deixe que estraguem teu verão, só por que choveu na primeira semana. Lembre-se: Um pássaro só, não faz verão sozinho. Ele alertou.
-Mas, mas, mas e se… Os olhos transpareciam dor.
-E se…? Gabriel abriu um riso torto. As flores estavam perdendo em cor, a rosa mais bela estava se pôs a chorar, não poderia transbordar ali, as cores morriam na imensidão de teu vento boreal, deixe que a brisa a beije, que a faça sorrir, mesmo que dure por apenas alguns minutos.
-E se eu for inverno? Anabela completou.
–Vá, Gabriel, recite uma poesia pra mim. Eu preciso delas. Anabela falou coma voz falha, o coração do moço se derretia, tentou olhar para frente e ver o céu, estava chorando. Gabriel desejava enfiar tua mão nos pensamentos ruins enraizados em Anabela, e os arrancar dali, só pra ver a bela rosa, sorrindo novamente, bailando por aí, beijando a brisa, virando mar, e vendendo flores, enfiada num vestido rendado. E então, o peito Gabriel triunfou, encheu-o de ar e esperou que uma poesia fosse cuspida para fora e que as palavras entupidas de sentimentos saltassem da sua boca. Tento, juro-lhes, tentou:
-‘’Num dia de sol,
quis contemplar algo diferente,
Você me surgiu na mente,
parecia-me uma louca,
inconsequente.
Num dia de sol,
quis beijar-te os lábios,
te guardei num relicário,
e a poesia num santuário.
Num dia de sol,
Me certifiquei,
Que flores em ti plantei,
Que te amores suspirei.
Num dia de sol,
Sorri sem querer,
E me toquei,
Que sou feliz, por amar você.’’
Gabriel sorriu, repetindo a mesma façanha de sempre, Anabela olhou-te os olhos, bem fundos. E em seguida soltou essas palavras:
-Esse último verso, meu bem. Repita-o pra mim.Anabela sorriu.
-Tu queres mesmo esse verso sem rima?
-Sim, meu moço, sim, vá. E então Gabriel começou:
-‘’Num dia de sol,
Sorri sem querer,
Que quase sem saber,
Sou feliz por amar você.’’ Ele riu estridente.
-Mas, não, você mudou, ela emburrou a face.
-Esse rimou, não foi? Que sejas, as últimas palavras são as que mais importam. Gabriel segurou os dedos de Anabela, enquanto ajeitava as flores no cabelo dela, o céu ainda chorava, Anabela, precisava ir embora, e o guarda-chuva continuava em sua cabeça, bem lá, rondando só pra atormentar a cabecinha confusa da moça desvairada.
-Eu também… Eu também… Eu também amo você. Ela disse, bem rápido, depois analisou o tinha acabado de dizer, passou os dedos no cabelo de Gabriel, e lhe deu outro beijo na testa.
-Precisamos ir. Está chovendo forte, vamos pra minha casa, está tarde, meu bem. Ele disse com a voz rápida, a pressa dele a assustava, mas sabia que ele era assim. Eles tinham de combinar. Combinavam um bocado.
-Tem um guarda chuva ali. Ela apontou para o lado esquerdo, onde ficavam os girassóis, o corpo arrepiou com a brisa gelada, passou as mãos nos próprios braços para ver se esquentava. Num instante Gabriel apareceu com um casaco na mão dando para Anabela vestir.
-Coloque-o. Está uma ventania, não quero que fique doente. Ele riu.
-Mas, você mora no outro lado da rua.
-Quem sabes? Mora lá, aqui, acolá, tô sempre morando em algum canto.
-Até morando em mim, cê mora, meu bem, até em mim. Eles seguiam os passos para o lado de fora, abrindo o guarda –chuva. O céu chorava, e estava escuro, atravessaram a rua com o os pés apressados, Anabela arrancou o guarda-chuva da mão de Gabriel, olhou nos olhos, e o puxou, beijou-lhe os lábios, na chuva. O menino acalmou o coração e retribuiu o beijo. A flor do cabelo de Anabela caía, Gabriel a ajeitou. E Anabela disse:
-E então… Que fiquemos doentes juntos. E o beijou novamente. Gabriel, a puxou para dentro de casa abrindo a porta, e Anabela deu o último sussurro que eu pude ouvir:
-Floresci em ti… E do outro lado, ouvi a porta batendo, Anabela dando-lhe um abraço, e vestido branco se perdendo, em flores rendadas de amor.
(via soprosdovento)

Confesso-lhes, ontem, eu fumei.
Um maço, dois, mentira, um único cigarro. Ele me pareceu tão grande e demorado. Eu precisava, precisava encher o pulmão de alguma coisa desconhecida, alguma coisa que não fossem borboletas inquietas e ousadas querendo saltar do estômago. Precisava tanto transparecer em algum canto, sentir alguma coisa entre os dedos, só para saber como é o sentimento de posse. Precisava sentir alguma coisa entre os dedos finos e compridos, sentir que havia algo ali e que não estava só. O cheiro ruim grudou na minha roupa, não preciso de ninguém me vendo, me sentindo, me beijando ou me tocando.
Eu chorei, e ninguém ouviu. A lua desapareceu do meus olhos, e num descuido minh’alma se foi pra distante. Os corpos celestes mais formosos ainda sorriam. Continuo me apoiando no escuro do meu quarto, soluçando em choro, e fraquejando a voz aos céus. Não suportei ouvir nada além do meu timbre tenebroso e escandaloso na minha cabeça. Eu queria gritar. Mas, não podia. Eu me canso fácil, tu sabes, sabes também desse meu medo imenso da solidão. Tenho medo de estar completamente só. Não de ser. ”Eu preciso colocar essa blusa p’ra lavar…” E agora? E agora de vale esse meu pulmão transbordando uma fumaça fétida? Eu precisei, eu disse… Não brigue comigo. Como se você se importasse se eu fico mais bonita ou não, com um cigarro entre os dedos. A única coisa que deveria estar entre meus dedos é você.
Mas agora faz silêncio, para minha alma adormecer dentro do seu pensamento. Essa bala atravessou meu peito, num tiro certo. O paraíso me recusa por ser assim, tão inconstante e estúpida. Choremos. E deixemos que o dia amanhã nasça um pouco mais branco do que preto.

Rua da Saudade, número vinte e três.(via soprosdovento)
Depois de um tempo chegamos a achar que flores no cabelo, também não vão morrer. Que as flores foram plantadas e enraizadas dentro da parte clara do coração. Depois de um tempo, eu cheguei a achar que o preto e branco era sempre mais gracioso. Cheguei um dia imaginar que poderia me perder em contradição, e ser por si só, nada mais de uma bailarina do vento com o coração estilhaçado entre os dedos. Cheguei a achar, que não passaria um dia sem arder e transparecer nas fotografias, por viver naquela insistência insuportável no passado. Até cheguei a pensar que todo meu amor, se reprimia, e fez o favor de se guardar num relicário trancafiado nos escombros de saudade. Eu ainda moro lá, na Rua da Saudade, número vinte e três. Me prometeu que voltaria, e por um segundo desejei que nosso amor transbordasse num infinito de suspiros incertos. Eu me enganei. Profundadamente. O céu está enevoado e não vejo nada além da minha própria sombra vazia. Minha respiração está sempre fraquejando, e eu ainda te sinto lá. Te vejo ali. Sentado na minha cama desarrumada, com as pernas grossas enroladas num lençol branco e rendado. Te vejo ali, com o copo de café na mão, soltando sorrisos para a brisa, te vejo ali, querendo enfiar a mão dentro do meu peito e arrancar tudo de ruim. Com aquele teu cabelo mal cortado e desarrumado, eu logo digo, mal cortado, por que fui eu quem o cortei… E isso faz tanto o tempo. Eu te sinto. Eu te respiro. Eu moro em você. Você mora em mim.
Te vejo ali, tocando-me os lábios, indo no bosque e trazendo algumas flores para colocar em meu cabelo. Reagia de um jeito tão doce, mesmo que as minhas palavras ásperas soassem dor dentro de você. Como se você estivesse alucinado de um jeito confortável e translúcido. Respirava todo o cheiro de terra e ajeitava o dorso para deitar em meu colo. E eu, eu ainda moro lá, naquela casinha velha e sem cor, com meu pensamento estúpido de que o preto e branco é sempre mais bonito, que todas as cores juntas. Tua voz ainda ecoa em mim, Luís, e quantas as vezes devo sussurrar ao teu ouvido o quanto eu sinto tua falta? Que toda vez que a água escorre por meu corpo, eu me vejo fora da minha alma triste -tristeza reprimida, faz mal, meu bem-. Você já sabe dos avisos, que eu deixo nas entrelinhas, sabes que eu te escrevo com toda a fúria de um furacão, que te espero aqui, na Rua da Saudade. E logo repito: -Número vinte e três.
Lembra quando dancei p’ra você? Transpareci em você, todos os passos de um amor gentil e leve. Os meus pés voavam e seguiam as batidas do seu coração impertinente. Você costumava me estilhaçar em pedaços sob medida. Era um dom repugnante e doloroso. Ainda te sinto. E te vejo ali, indo na rua buscar o pão de mel, te prendia com os olhos e parava todos os seus passos, apenas com um murmuro de amor. Queria tanto me deixar transparecer em seus beijos, e eu que por fim, fui falecer em teu cheiro. Falecer em cada palavra guardada. E depois de um tempo, chegamos a pensar que o amor era suficiente e que não pesava, assim como o cheiro salgado do mar em nossas narinas logo cedo. Penetrando em cada poro de nós. Penetrando em cada suspiro, por querer e por desejar ser tua em cada instante de minha vida.
Por querer te beijar os lábios, e te provar onde é céu. E me jogar do precipício só por te amar desse jeito insolente e desesperador. E logo digo: -Teu perfume continua em mim. Continua e isso me tortura, um pouco mais do que você pode imaginar. Ainda te sinto e te vejo ali deitado em minha cama, com os mesmos olhos cansados e tristonhos de sempre. Eu espero em cada segundo do meu dia, que você ainda me encontre numa esquina da vida. Ou num canto de qualquer pássaro, que venha nos visitar, que o nosso romance louco e deprimente continue… e continue… pelo tempo que for. E o por quanto o tempo desejar que seja. E não se esqueça, por favor, Rua da Saudade, número vinte e três.

Dá um sorriso disfarçado. E se esconde por detrás da árvore da alma. Dá um suspiro fraquejado e tenta se recompor. Desvia algumas olhadelas para o céu, o coração bate fraco, quase falecendo. Mas ainda tá ali. Com a alma gritando. Os olhos transbordam e a saudade arranha dentro do peito, mais algumas olhadelas para o céu e tudo se desmancha. Se sentou num cantinho sendo beijada pela brisa, esperando alguém aparecer e lhe afagar o coração com os dedos quentes. Deu um outro sorriso para o vento. Se desfez em amor. Um daqueles encontros fracassados consigo mesma, o pulmão era vazado e o coração ardia… E ardia. Até que queimou. Ele disse adeus, mas ainda estava ali, de corpo presente. E de alma viajante.
-Você fala. Mas, eu não posso escutar. E que esse teu silêncio soe poesia. Ou que apenas soe o vazio dentro do nosso peito. Ele ainda estava com um sorriso nos lábios, retratava um ‘nós’ de um jeito gritante e feliz. Soprava dentro do peito toda a alegria que nunca tiveram antes. O menino deixava transparecer o adeus dentro os olhos, mas não arrancava o sorriso do rosto. Ela queimava em amor, mas dava um risinho estridente e sem graça, para transparecer. Ele desceu os dedos por teu rosto fino e gélido. Ela era inverno, definitivamente, um inverno rigoroso e gelado.
-Desate o nó, desfaz o abraço, tira o meu cheiro…Ele disse com a voz calma.
-Você não deve ir embora… Colocou laços em meu cabelo, tocou-me os lábios, recitou poesias… E agora, está me deixando em pedaços. Me sinto vazia.
-Os vazios são sempre cheios de alguma coisa. Ele afirmou, passando os dedos no cabelo da moça.
-Veja só, está me afagando o coração. Não quero que vá, não precisa ir. O coração derretia, e derretia.
-A liberdade, meu bem, preciso beija-la. Preciso respirar.
-Tu vais? Me dissestes que ficaria. Tolice, a minha, não?! Ela chorava.
-Teu coração respira fragilidade e melancolia. A tristeza de teus olhos, me corrói na alma. Isso é doloroso.
Ela respirou fundo. O coração acelerou um pouco mais, logo depois se acalmou, as lágrimas escorriam pela face e isso era perceptível. A semblante de menina tristonha transparecia em cada inspirar. Fechou os olhos e os segurou, deu suas olhadelas para o céu e faleceu em amor. Os dedos estavam frios e o rapaz ainda os segurava. O vento a afagou, mas ele continuava com um sorrisinho no rosto.
-Tu vais ficar? Ela perguntou novamente, esperando por outra resposta, uma que alegrasse o coração e que transbordasse pelos olhos tudo aquilo que estava sufocado.
-A verdade…A verdade é que eu sou apaixonado pela tristeza. Eles se olharam fundo, e ela desviou o olhar para o chão. O cabelo escorreu no rosto e ele os enfiou por detrás da orelha. Beijaram-se. Enquanto o coração vazado da menina tentava se recuperar.

-Sussurra o que te faz sorrir. A voz da menina soava fundo. Respirava o cheiro do mar. O coração batia devagar, seguindo o ritmo da água. E ela suspirava. -Sussurra o que te faz sorrir… Ela repetia. Mas prendia a voz. Respirava toda a nostalgia que havia dentro do peito, e estava prestes a ter uma longa conversa consigo mesma. Segurava entre os dedos finos algumas flores que eu não sei o nome. A simplicidade e a leveza saltava de seus olhos.(via soprosdovento)
-Ele…Ele…Ele bem que poderia desaguar em mim. Desaguaria todo aquele oceano que vive dentro dos olhos, eu poderia beber dele todos os dias, enxurrada, tempestade, transbordando você. Saberia o gosto dele, as manhas e os desejos. Afogaria-o num beijo, num final melancólico de tarde. Ele… Ele bem que poderia ser meu, num suspiro qualquer. Ó, mar, se me escutastes, mergulharei dentro de ti e virarei sereia.
-Sussurra o que te faz sorrir. O peito enchia-se de orgulho, mas a voz se recusava sair. Nenhuma palavra. O silêncio flamejava, e a menina tentava manter a memória presa no menino de olhos claros. O menino mar. O menino tempestade. Enfiou os pés dentro da areia e fechou os olhos. Transparecia num raio de sol. Desejava ser alguma coisa que pudesse trancafiar os pulmões numa gaiola e solta-los no ar, e respirar apenas água. Respirar apenas o oceano. Desejava poder viver lá dentro, enquanto o seu menino, não desaguasse em teus olhos. Respirava fundo e tentava contemplar alguma coisa perdida no céu. Ganhava em troca apenas alguns sorrisos de nuvens que estavam por transbordar. Dessa vez desejou ser um pássaro e seguir o caminho de liberdade para distante. Deu um riso estridente para disfarçar aquilo que ninguém tinha visto.
-E ele bem que poderia viver em mim… Bem que… Se bem…Acho que… Acho melhor me calar. Queria que ele soubesse essa confusão que causa dentro de mim. Sou só dona moça que corre por aí, procurando uma paixão inconstante, que procura um par de braços para se esquentar. E eu… E eu que bem sei, que sou só menina esperando ter um colo eterno. E ele bem que podia viver em mim.
-Sussurra o que te faz sorrir. A menina desvairada olhava apreensiva procurando por alguma coisa, e o mar continua beijando seus pés. Respirou fundo e sentiu o coração desmanchando-se em novecentos e noventa e nove pedaços. E que alguém os junte, por favor.
O mar sorriu, e beijou seus pés novamente. O corpo inteiro se arrepiou, fechou os olhos e se afogou. Mas, o peito ainda latejava por querer, por estar, por ficar. Deu um suspiro fundo e mergulhou a alma, a flor em seus dedos, estavam exalando um cheiro adocicado. E ela respirava, levando sua dor para todas elas.
-Ele poderia… Ele bem… Ah, ele deveria… deveria ser meu. A menina fraquejava a voz. Sentiu alguns passos por detrás, porém não virou o rosto. Os olhos transbordavam de saudades, ansiava até por aquilo que nunca chegaria. E os pés pareciam cada vez mais perto, a alma flamejava um pouco mais alto. A semblante perdia-se na imensidão e perdia-se num céu pintando numa nova cartela de cores. Perdeu-se na grande imensidão do nada.
-Sussurra o que faz feliz. E dessa vez não foi a moça. A voz entrava pelos ouvidos e arrepiava até a alma, era um voz rouca e firme. O corpo se firmou na areia e deu um sorriso de lado. Suspirou. E procurou forças para sorrir, ela sabia quem era. Aquela voz sempre soava como um soneto poético num fim de tarde… E ela transbordou. E com a voz ainda falha, procurou num desvio rápido de olhar responder:
-Você. Fechou os olhos. E suspirou.

A fragilidade de depender dos sorrisos teus. A fragilidade de ser soprada pela brisa leve, sendo guiada pelo teu horizonte frio. E a certeza de que sejamos apenas duas almas aladas voando pelo mundo inteiro, vivendo da incerteza de nos esbarrarmos num canto qualquer, como se fosse a nossa última chance de sentir. E hoje eu observo, está frio e as expectativas se foram junto ao teu desvio de olhar. Você escorreu entre meus dedos, como água fugindo da corrente. Eu que bem sei, fugistes de mim, e no seu caso, eu também fugiria. Dissestes a mim que não levaria um pedaço meu, fez pior, arrancou-me o coração inteiro e o carregou entre os dedos. Sangrando. Morrendo.(via soprosdovento)
Meu silêncio me mantém em pé. A dor me convém. Soa como um soneto de morte, falecendo a cada nova palavra soprada pela brisa. Estou desequilibrada. Insisto tanto em querer-te cada dia um pouco mais, essa necessidade de sentir a simplicidade de cada suspiro teu. E eu que bem sei… Que esse teu silêncio me tortura a alma. Insisto. Ou apenas existo. Escolhas, escolhas, escolhas. A vontade que aquece meu corpo é de se enfiar num canto qualquer, distante, só com você. Mesmo que machuque; mesmo que sejamos duas almas vagas e silenciosas. E com os olhos lacrimejando repito: Sou frágil. Um pássaro de asas quebradas que ainda ousa voar. Ousadia e perigo. Desejo que mergulhe em mim, assim como fiz questão de me afogar em você.
Com a tinta preta da caneta, vou desenhar do lado oeste o nosso novo horizonte. Mesmo que esteja borrado e marcado por rastros de saudades. Perdi o endereço, meu amor. A tua voz continua soando dentro de mim como uma canção. Meu timbre está fraco. E voz fraqueja toda vez que me ouso, recitar um poema com a luz dos olhos teus. Me sinto vazia, e acho errado. Os vazios são sempre preenchidos de alguma coisa, talvez seja, meu amor, a Rua da Nostalgia, número trezentos e noventa e um. Não importa, virei um verso impresso do lado errado. De ponta cabeça. Impresso do lado tenebroso do coração.
E eu que bem sei, a única coisa que me resta é gritar por socorro e esperar que minhas asas se curem. Esperando que o sol se abra, e que raie e esquente todos os poros da minha alma. Minha alma gritante. Latejante. Flamejante. Meu grito vai soar fino nesse teu ouvido, e eu vou subir e gritar bem alto… Até você me ouvir.
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